Duas vezes Clint

por André Timm Em frente ao espelho, Timothy treina falas clássicas de Harry Callahan. Aperta os olhos, ajeita o paletó e se encara. Só pra entrar no clima, no papel. Não que precise, mas é que Timothy acredita que o fato de ele se tornar Clint durante as cenas traz alguma veracidade ao trabalho. A…

“Play Misty for Me” – Uma Introdução

por Luiz Biajoni O primeiro emprego de Dave Garver tinha sido como assistente de eletricista na primeira edição do Monterey Jazz Festival, em 1958, e ele não conhecia ninguém do line-up do evento, que tinha Billie Holiday, Louis Armstrong, Dizzy Gillespie, Gerry Mulligan, Sonny Rollins e Dave Brubeck entre as atrações principais. Dave tinha dezessete anos, morava em…

Straight, no chaser

por Bruno Bandido Tem essas coincidências que só acontecem quando a gente tá feliz. Minha filha, por exemplo, nasceu no dia do nosso aniversário de casamento. Seria hoje. O aniversário da minha filha e já nem sei mais quantos anos de casado com minha mulher. E tem essas coisas que a gente pensa quando quer…

Zodíaco

por Sérgio Tavares Clint Eastwood sente o raio de sol atravessar seu rosto e se quebrar no rebordo do alpendre. Achinesa os olhos, corre a mão até o cinto e apreende a frieza do metal. Seu oponente está empertigado a alguns metros, torrando sob o verão amarelo de Carmel. Clint Eastwood caminha a passos calculados, um…

Vento Mistral

por Lucas Barroso Ele era do tempo que velhos jogavam dominó e dama nas praças. Do tempo que velhos ficavam sentados em frente a suas casas, contando o número de pessoas conhecidas que circulavam – e tentando memorizar o nome de todas. Também haviam os velhotes que consertavam coisas – com suas ferramentas gastas –,…

Horas mortas e bangue-bangues

por Roberto Denser Dona foi, durante algum tempo, um cara legal. Nunca soubemos os detalhes de sua história, das coisas que aconteceram desde antes de seu nascimento até o dia em que chegou na nossa vizinhança com a cabeça raspada e um brinquinho brilhando no canto da orelha. Havia na turma uma espécie de consenso…

Mulholland Drive

por Carlos Henrique Schroeder Silêncio. Clint Eastwood não existe. Numa sala com teto e paredes vermelhas e piso de porcelanato marfim, é possível ver dois homens sentados confortavelmente em dois sofás azuis, frente a frente. David Lynch e Clint Eastwood. Eastwood saca uma pistola metálica e dispara três tiros no rosto de Lynch. David Lynch…

Clint Eastwood e o ataque alienígena

por Jorge Bandeira Para Sunny Petiza Ele estava puto, e com razões de sobra. A terra do Velho Oeste tinha sido invadida por seres de outro planeta, e mais feios que ele, Clint. Infinitamente mais feios. As coisas iriam piorar consideravelmente para o lado dele. Era hora de abastecer o seu Rossi, modelo bacamarte Spaguetti….

Ninguém jogará as cinzas do pai sobre as pontes de Madison

por Jeferson Tenório Quando meu pai colocou a mão no peito e sentiu uma dor lancinante e fatal, ele estava só. Era um homem só por definição. E após a morte da nossa mãe, há 3 anos, a reclusão dele aumentou. A princípio meu irmão Alberto tentou fazer-lhe companhia. Mas a verdade é que meu…

Um Blues para Clint Eastwood

por Roberto Menezes Tem outro jeito não. O cara tem que encarar a vida de pau duro. De pau duro. Sem baixar a guarda. Dormir de pau duro. Acordar de pau duro. Vinte e quatro horas. Sangue nas veias e um pau duro pulsando na cueca. A vida não perdoa. A vida faz polenta de…

Antes dela ter morrido em Ciudad Juarez

por Adriana Brunstein Acabei chutando a porta e não soube dizer o que era sangue, o que era morte, ou se um era parte do outro. Uma mola saía por um pedaço do colchão, parecia a fratura exposta daquele cara de cor esquisita, que mesmo com um facão quase atravessando seu pescoço, não se decidia…

Clint, cabeça e tronco

por Marcelo Araújo O nome Clinton Eastwood Jr datilografado em negrito na ficha cheia de espaços em branco. Um corredor longo e suas filas de luzes que levará ao fim do túnel da perda, ou pior, duas perdas meramente físicas. Um pico atravessando a superfície da pele é necessário para adormecer o local sem fechar…

Unknown girl

por Marcia Barbieri Erigir o membro e depois escondê-lo numa massa andante de carne, num amontoado infame e sem função, definitivamente a identidade não fica na buceta. Sim, depois de ter me masturbado na infância com as bonecas retilíneas de minhas primas, com os quadrinhos eróticos japoneses, em frente aos manequins esquálidos e seminus das…

O dia em que Clint Eastwood arrombou o cu do Silas Malafaia

por Bruno Ribeiro O e-mail chega de 19h47min. Dois minutos atrasado. Eu estou em Buenos Aires, hospedado em um quarto da Pousada Díaz na calle Bolívar, San Telmo. O trabalho não é fácil, agir em outro país é complexo e com a falta de informação – algo que devemos nos acostumar se tratando do Bode…

Relatos da sobrevivência urbana

por Mauricio Griesbach Na minha infância, todas as noites meu pai lia algum trecho da bíblia, um ficou gravado na minha memória, Apocalipse. Falava de pessoas que não eram quentes nem frias, eram mornas e seriam vomitadas porque não sentiam a falta de nada e na verdade eram desgraçadas, miseráveis, cegas, pobres e nuas. Eu…

Telecatch

por Felipe Pauluk um desejo de morte me corroía. um novo objetivo a ser alcançado. o “x” do mapa da vida. o tesouro da minha escuridão. aquilo queimava minhas entranhas, fazia putrefar meu ser toda manhã em que eu acordava com os raios solarengos comendo a parede de frente à minha cama. respirar não era…

Um velho de ouro

por Kleber Felix E aí, velho… Sabe, passei esses anos todos pensando. Que fim você teria levado. Se meteu uma bala na cabeça, se comprou uma espelunca qualquer no fim do mapa e assumiu o papel de um anônimo coroa mal-humorado atrás dum balcão servindo tortas de limão e jarros de cerveja vagabunda pra um…

Merecer não tem nada a ver com isso

por Marcelo Benvenutti A morte já fazia parte do nosso dia a dia. Minha mãe ficava lá, moribunda, deitada na cama do quarto, e eu a acudia quando ela chamava. Os médicos já tinham a desenganado. Mandaram pra casa. Nem sessenta anos, tossindo sangue. Eu fazia de tudo, limpava a casa, lavava a louça, até…

O Clint Eastwood do setor 4

por Maikel de Abreu I Era o meu terceiro mês. Com toda a confusão mental atribuída ao mormaço do verão, memorizava com grande esforço as rotinas avançadas do setor 4. Fábio elogiava os meus progressos, embora eu não sentisse sinceridade nos elogios. “Vai fazer a tua primeira baixa hospitalar”, disse ele, recolocando o telefone no…